Tião Procópio: a história de um pioneiro do rodeio em touros no Brasil

Tião Procópio: a história de um pioneiro do rodeio em touros no Brasil

A relação de Tião Procópio com o rodeio começou muito antes das arenas. Criado no meio da lida com o gado, dos cavalos e das histórias de comitiva, ele teve contato com esse universo ainda criança.

Com o passar dos anos, Tião levou para as arenas as experiências que acumulou na fazenda. Mais tarde, a busca por conhecimento e experiência o levou aos Estados Unidos, onde construiu uma nova etapa de sua trajetória.

No episódio do MF Cast, Tião Procópio relembrou momentos dessa caminhada, desde a infância em Paulo de Faria até as montarias nos Estados Unidos, a conquista em Barretos, a formação de novos competidores e os acidentes que marcaram sua carreira.

A infância na fazenda e o contato com os animais

A história de Tião Procópio começou no campo. Embora tenha nascido em São José do Rio Preto, Tião cresceu na fazenda da família em Paulo de Faria, na região do Rio Grande, próximo à divisa com Minas Gerais.

Até os 10 anos, ele dividia a rotina entre a fazenda e a escola. Como a cidade ficava a aproximadamente quatro quilômetros de distância, ele ia a cavalo para a escola ao lado do irmão.

Entretanto, a relação com os animais havia começado ainda antes. Aos 3 anos, Tião já andava a cavalo. Depois, entre 5 e 6 anos, ajudava a pegar vacas para o tio que trabalhava na retirada do leite. Aos 7, começou a montar em bezerros.

Assim, antes mesmo de pensar no rodeio como profissão, Tião já havia desenvolvido uma grande intimidade com os animais na própria fazenda.

Das comitivas ao nascimento do rodeio

Além da rotina de trabalho, Tião cresceu ouvindo histórias das comitivas que faziam parte da vida de sua família. O avô tinha uma comitiva, e as viagens eram longas, podendo durar 30 ou até 60 dias.

Os peões buscavam os animais em regiões de Goiás e Minas Gerais e os conduziam pelas estradas até o destino. Cavalos novos também acompanhavam as tropas, e os peões os amansavam durante o caminho, com o auxílio de um domador que fazia parte da comitiva.

Segundo Tião, foi justamente nesse ambiente que as primeiras disputas começaram a aparecer. Quando diferentes comitivas se encontravam, os peões comparavam suas habilidades.

“Meu peão é melhor que o seu” era o tipo de provocação que, conforme ele relembrou, acabou levando à primeira disputa. Para Tião, foi nesse contexto que o rodeio nasceu em Barreiros.

O rodeio entrou na vida de Tião ainda menino

A influência da família também chegou diretamente à arena. Tião apontou o pai como fundador do rodeio de Paulo de Faria. Desde criança, ele acompanhava as atividades relacionadas às montarias e, com o tempo, se tornaria competidor.

Tião Procópio ao lado do pai em uma arena de rodeio, representando suas raízes no rodeio e na vida no campo.
Tião Procópio ao lado do pai, em um registro que representa suas raízes no rodeio e na vida no campo.

Entre os 12 e 14 anos, Tião chegou a participar de apresentações em circo de tourada. Além disso, seu pai criava situações de competição entre os filhos durante a marcação e a desmama dos bezerros. Quem conseguisse permanecer sobre o animal até ele parar ganhava o bezerro.

Antes das técnicas e dos equipamentos que o rodeio incorporaria posteriormente, muita coisa acontecia de maneira bastante rústica. Nas atividades da fazenda, os peões manejavam o gado praticamente todo à mão e também realizavam disputas de castração entre cidades.

Depois que os peões derrubavam o bezerro ou o boi, eles precisavam segurá-lo. Em algumas situações, após o animal se levantar, Tião e outros meninos montavam diretamente sobre o couro do cupim, sem corda.

Foi nesse ambiente que Tião formou a base de sua montaria.

A inspiração para atravessar as fronteiras

O desejo de conhecer o rodeio norte-americano surgiu enquanto essa modalidade ainda dava seus primeiros passos no Brasil.

Tião contou que Murilo Tibério, de Uberaba, viajou aos Estados Unidos em 1978 e que, para ele, foi o primeiro brasileiro a ir até lá para conhecer o rodeio e buscar referências. Murilo também levou experiências de fora para as exposições brasileiras e chegou a treinar alguns peões.

Entretanto, outro momento também ficou marcado na memória de Tião. Em julho de 1979, Django apareceu em Paulo de Faria para montar no cutiano. Como já havia estado nos Estados Unidos, sua presença despertou ainda mais curiosidade.

Naquele período, o filme Oito Segundos também chamava a atenção dos peões. Os cinemas ficavam lotados, e as imagens dos rodeios americanos faziam com que muitos quisessem conhecer aquela realidade de perto.

Foi então que a ideia de viajar começou a ganhar forma.

Tião Procópio foi para os Estados Unidos em busca de experiência

Tião Procópio mostra a Django uma montaria em touro durante um registro da trajetória do rodeio em touros no Brasil.
Tião Procópio mostra a Django como era a montaria em touros no Brasil.

Depois de conversar com Django e observar mais de perto aquela realidade, Tião decidiu que queria ir aos Estados Unidos. Tião consultou o pai e, depois de explicar que a viagem estava relacionada ao rodeio, recebeu seu apoio.

Naquele momento, porém, não bastava chegar ao país e simplesmente entrar em uma competição. Segundo Tião, a PRCA era a associação existente naquele período, e era necessário passar por uma escola para começar a competir.

Tião organizou a viagem e escolheu uma escola em Hayward, na Califórnia. O treinamento teria duração de três dias, com três montarias.

Além disso, Tião precisou adquirir boa parte dos equipamentos nos Estados Unidos. Ele comprou corda, luva e espora, pois até então não tinha esse material disponível no Brasil.

A adaptação, portanto, começou antes mesmo de entrar na arena.

De brasileiro desconhecido a campeão da escola

Ao chegar à escola de Hayward, Tião se deparou com aproximadamente 40 alunos e competidores. Entre eles estavam nomes ligados à PRCA, como Shawn Davis, que na época era presidente da associação e também estava à frente da escola, além de JC Trujillo e John Davis.

A diferença cultural também era evidente. Tião contou que chegou com roupas e equipamentos diferentes daqueles usados pelos competidores americanos. Ele também precisou adaptar a bota: dobrou o cano longo que usava no Brasil para deixá-lo mais curto.

Apesar das diferenças, o desempenho dentro da arena começou a chamar atenção.

Durante os treinamentos, Tião recebeu orientações sobre posicionamento e montou em diferentes touros. No terceiro dia, a equipe da escola escolheu o melhor touro para a montaria.

Tião montou.

E foi campeão da escola.

Tião Procópio aparece ao lado de seu instrutor, segurando a fivela de campeão da escola de rodeio nos Estados Unidos.
Tião Procópio ao lado de seu instrutor com a fivela de campeão da escola de rodeio nos Estados Unidos.

A conquista ficou registrada em uma fivela, em um diploma e também em fotografias que, segundo ele, ainda guarda.

O brasileiro que precisou conquistar seu espaço

A vitória na escola abriu uma nova oportunidade. Depois de vê-lo montar, Shawn Davis autorizou Tião a participar de um rodeio profissional em Colorado Springs.

Na sequência, ele foi até a sede da PRCA, onde recebeu sua carteirinha e passou a participar dos rodeios profissionais. O próprio Tião tratou o primeiro ano como uma fase de experiência.

Além da adaptação à competição, havia também uma barreira cultural. Tião relatou que, naquele período, havia poucos competidores estrangeiros. A maioria dos competidores era americana, e Tião tinha pouca familiaridade com o inglês.

A rotina também era financeiramente pesada. Era preciso pagar inscrições, viagens, alimentação e até para montar.Por isso, Tião encontrou uma alternativa: começou a trabalhar em uma companhia de rodeio na Califórnia.

Pela manhã, trabalhava com os animais. Depois, acompanhava os rodeios da companhia. Dessa maneira, ele construiu experiência tanto dentro quanto fora da arena.

A volta ao Brasil e uma nova fase no rodeio

Depois dessa primeira experiência nos Estados Unidos, Tião voltou ao Brasil. Aqui, Tião viveu uma nova etapa de sua trajetória.

Em 1980, ele foi campeão em Barretos montando o Canarim, touro de Murilo Tibério. Na época, a estrutura das arenas ainda era muito diferente da atual.

Tião Procópio durante uma conquista no rodeio, em um registro de sua trajetória nas arenas brasileiras.
A conquista no rodeio marcou uma das etapas da trajetória nas arenas brasileiras.

Os bretes eram de madeira, o chão era de grama e as montarias em touros ainda estavam em um período inicial de desenvolvimento. Segundo Tião, não havia sequer regras consolidadas e muitos competidores montavam utilizando as duas mãos.

A conquista em Barretos aconteceu, portanto, em um momento em que a modalidade ainda estava sendo construída.

A formação de novos competidores

Tião também passou a compartilhar sua experiência com outros competidores.

Tião explicou que a formação de um peão mudou ao longo das décadas. No passado, muitos chegavam ao rodeio depois de uma infância vivida na fazenda, com experiências envolvendo cavalos, bezerros, gado e trabalho no campo.

Por causa disso, quando chegavam às arenas, já existia uma intimidade maior com os animais.

Ainda assim, ele abriu novos caminhos ao longo da carreira. Tião contou que ministrou cursos de montaria e também de julgamento. Alguns alunos chegavam sem sequer ter tido contato anterior com cavalos.

Nesse processo, Tião passou a usar os conhecimentos adquiridos ao longo da carreira para formar novos competidores.

O manejo dos animais também fez parte da trajetória

A entrevista também abordou a relação com os animais.

Tião afirmou que, ao longo do tempo, o manejo dos touros e cavalos passou por mudanças. Segundo Tião, atualmente os cuidados seguem uma estrutura mais organizada, desde a fazenda até o transporte e a permanência dos animais.

Os responsáveis podem manter os touros em piquetes separados, especialmente quando existe conflito entre eles. Também precisam cuidar da ração e da água e acompanhar a saúde dos animais com atendimento veterinário.

Além disso, Tião explicou que o touro precisa passar por um processo gradual de condicionamento antes de chegar à arena. O processo começa com testes e adaptação e pode levar um ano ou mais.

Primeiro, os responsáveis trabalham o animal na fazenda. Depois, passa pelos bretes e pela arena, até se acostumar com os procedimentos. Afinal, quando chega ao rodeio, ainda existem fatores como som, luz e público que podem alterar seu comportamento.

O acidente antes de voltar aos Estados Unidos

A segunda passagem de Tião pelos Estados Unidos também começou depois de um acidente.

Antes da viagem, ele participou de uma apresentação em Novo Horizonte. Na época, a arena tinha uma estrutura improvisada, e os responsáveis usavam bretes próprios do rodeio de cavalos.

Durante a montaria, o touro saiu em direção à cerca e atingiu sua perna. O impacto quebrou o dedão do pé de Tião dentro da bota.

Mesmo com o pé machucado e enfaixado, Tião decidiu viajar. A competição nos Estados Unidos estava marcada para poucos dias depois.

A lesão, porém, ainda teria consequências durante a competição.

O acidente nos Estados Unidos e a luxação do ombro

A competição aconteceu em Cheyenne, em uma final que reunia 15 classificados de cada modalidade. Tião havia chegado àquela etapa depois de conquistar resultados na região formada por Wyoming, Colorado e Utah, terminando em terceiro lugar na classificação regional.

Antes de voltar aos Estados Unidos, seu visto havia vencido e ele precisou retornar ao Brasil. Foi somente depois que recebeu cartas e ligações informando que havia se classificado. Com o incentivo do pai, decidiu voltar.

Já em Cheyenne, o dedo quebrado ainda fazia parte da história.

Na primeira montaria, o touro pressionou justamente o pé machucado. Mesmo assim, Tião continuou. Durante os movimentos do animal, porém, a corda cedeu e ele acabou ficando enroscado.

O resultado foi uma luxação no ombro. O impacto deslocou o braço de Tião, e a equipe o levou ao hospital. Lá, os médicos aplicaram anestesia e colocaram o ombro novamente no lugar.

Depois disso, ele ainda permaneceu nos Estados Unidos por algumas semanas, mas não conseguiu continuar montando naquela competição.

Ao retornar ao Brasil, a lesão continuou afetando sua trajetória. Segundo o próprio Tião, o ombro voltava a sair do lugar durante as montarias e ele precisava colocá-lo novamente. Com o tempo, também perdeu movimentos.

Tião Procópio e uma trajetória marcada pelo rodeio

A história contada por Tião Procópio no MF Cast passa por diferentes momentos do rodeio brasileiro: a infância na fazenda, as comitivas, as primeiras montarias, a busca por referências nos Estados Unidos e a construção de uma carreira em um período em que a modalidade ainda estava sendo estruturada.

Além das conquistas, Tião relatou as dificuldades de adaptação, os trabalhos que realizou para permanecer nos Estados Unidos, o retorno ao Brasil, a formação de novos competidores e os cuidados com os animais.

Sobretudo, a trajetória apresentada na entrevista mostra como as experiências vividas na fazenda acompanharam Tião dentro das arenas. Foi nesse contato desde menino com cavalos, bezerros e gado que, segundo Tião, ele começou a desenvolver a intimidade com os animais que levaria para a vida no rodeio.

Quer conhecer a história completa de Tião Procópio? Assista ao episódio do MF Cast e confira os relatos do pioneiro sobre as montarias, os Estados Unidos, Barretos, os animais e os momentos que marcaram sua trajetória.

Autor

  • Bárbara Gatto de Mattos

    Médica Veterinária com formação complementar em Medicina Preventiva e Saúde Pública. Graduanda em Tecnologia em Alimentos.