O MF Cast recebeu Feliciano Benedetti, médico veterinário, doutor em reprodução animal e doutor em qualidade de carne, para uma conversa direta sobre o que, de fato, aumenta rentabilidade na pecuária de corte: seleção orientada por dados, manejo coerente e nutrição capaz de sustentar o potencial genético.
Ao longo do episódio, Feliciano reforça que “carne de qualidade” não é um discurso bonito para marketing. É um projeto técnico. E o principal divisor de águas, hoje, é usar ferramentas objetivas, como a ultrassonografia de carcaça, para tomar decisões de seleção, descarte e acasalamento.
Carne dá dinheiro. E carne é rendimento
Um dos pontos centrais do episódio é a diferença entre animal pesado e animal eficiente.
Feliciano explica que o produtor não é pago por cabeça, couro, vísceras ou ossatura. Ele é pago pela carne que aquela carcaça entrega. Por isso, peso vivo não pode ser o único parâmetro de decisão. Existe animal que “enche o olho” no pasto ou no confinamento, mas entrega pouco na carcaça.

Na prática, a pecuária de corte melhora quando o foco migra de aparência e impressão visual para rendimento, musculatura e eficiência.
A ferramenta sem volta: ultrassonografia de carcaça
Feliciano defende que a ultrassonografia é um caminho sem retorno para quem quer acelerar progresso genético e reduzir erro dentro da fazenda.
O ultrassom permite enxergar o animal vivo por dentro, gerando indicadores que o olho não mede com precisão, como:
- Área de olho de lombo, que se relaciona com musculatura e produção de carne;
- EGS, medida associada a acabamento, precocidade e também correlação com fertilidade em determinados contextos;
- Marmoreio, que entra como componente de qualidade e diferenciação, mas depende de um sistema bem montado.
Além disso, ele destaca aplicações práticas que muita gente ainda subestima, como:
- Separar lotes no confinamento por tempo de saída;
- Identificar animal que já não vai responder em ganho de carcaça e está só consumindo custo;
- Prever desempenho e melhorar poder de negociação ao vender lotes com padrão superior.
A distância entre pista e pasto
Outro ponto forte do episódio é o alerta sobre o descompasso entre seleção estética e seleção funcional.
Feliciano argumenta que animal de pista pode ser muito bem tratado e extremamente bonito, mas isso não garante que ele performe no ambiente real de produção. Para ele, o animal precisa ser selecionado para cumprir sua função comendo capim, sustentando desempenho e gerando carne.

Isso não significa que fenótipo não importa, mas significa que fenótipo sem funcionalidade não resolve o problema da produtividade.
O tripé que sustenta resultado: genética, manejo e nutrição
A fala do Feliciano deixa um recado bem objetivo: genética sozinha não carrega uma fazenda nas costas.
Ele reforça que resultado vem de um tripé:
- Genética, para elevar o teto do potencial;
- Manejo, para reduzir perdas, manter sanidade, bem estar e consistência de produção;
- Nutrição, para liberar o potencial genético e transformar capacidade em carne no gancho.
Nessa parte, ele chama atenção para um erro comum: investir em animal superior, mas manter pasto ruim, água ruim e manejo de pastagem negligenciado. O sistema trava a genética.
Nutrição fetal e a base da carcaça começa antes do nascimento
Feliciano também aprofunda o tema da nutrição fetal, mostrando que produtividade não começa na desmama.
Ele explica que a gestação pode ser vista em etapas, e que o desenvolvimento de fibras musculares ocorre em período crítico antes do nascimento. Se a vaca gestante não recebe nutrição adequada, o resultado pode ser um animal que já nasce com menor potencial de rendimento.
Na prática, isso reforça uma ideia simples e poderosa: a produção de carne começa dentro da barriga da vaca, e o manejo da matriz é uma peça técnica do sistema.
Marmoreio: herdabilidade, seleção e sistema
Feliciano é bem claro ao tratar marmoreio como “cereja do bolo”.
Ele reforça que marmoreio tem herdabilidade de média a alta, mas não aparece por decreto. Não basta comprar um touro bom e achar que tudo acontece sozinho. O resultado depende de duas frentes:
- Seleção, especialmente com ultrassom, para identificar fêmeas com melhor base e fazer acasalamento dirigido;
- Sistema, com nutrição e manejo que permitam essa genética se manifestar.
A mensagem é objetiva: quem quer carne premium precisa fazer seleção e precisa sustentar o sistema. Sem isso, o potencial fica no papel.
Acasalamento dirigido: corrigir defeitos e acelerar ganho genético
O episódio também entra na lógica de acasalamento dirigido.
Com dados do ultrassom em mãos, o produtor deixa de “jogar touro em cima” e passa a acasalar com estratégia:
- Fêmeas com boa musculatura mas baixo EGS podem receber touros que corrijam acabamento;
- Fêmeas com pouco rendimento podem ser descartadas para não perpetuar um rebanho mediano;
- Novilhas podem ser priorizadas para leitura mais fiel das características e seleção mais eficiente.
Essa abordagem acelera o progresso e reduz custo de oportunidade, porque evita multiplicar genética que não entrega o que o sistema exige.
O gargalo do Brasil: levar a genética certa para o rebanho comercial
Para Feliciano, a evolução existe e as ferramentas estão disponíveis, mas o avanço não acontece na velocidade necessária.
O principal gargalo, segundo ele, é aproximar mais a genética selecionada e comprovada do produtor comercial, com orientação e estratégia.
Não basta existir material genético superior. É preciso criar ponte entre quem produz genética e quem produz carne, com um projeto aplicável no campo e sustentado por manejo.
Assista ao episódio completo e aprofunde seu entendimento sobre genética e carne de qualidade: