Quando falamos de sucessão familiar no agronegócio, o primeiro ponto é simples, mas decisivo: sucessão é um processo, não um evento.
Ela não começa no inventário, nem no dia em que se assina a transferência da fazenda, das quotas ou do arrendamento. A sucessão começa antes, com o “patrão” ainda no comando, por meio de conversas claras, preparo da família e organização do negócio rural.
Sucessão familiar como processo: começar cedo é decisivo
É útil imaginar a sucessão familiar como um percurso em etapas, assim como o planejamento de uma safra:
- Diagnóstico da situação atual da fazenda;
- Preparação dos sucessores;
- Profissionalização da gestão;
- Organização jurídica e patrimonial.
Quanto mais cedo esse caminho é iniciado, mais suave, eficiente e segura se torna a transição entre gerações.
No campo, é comum ouvir: “Ainda é cedo, ainda dou conta, depois a gente vê isso”. Muitos associam sucessão apenas à invalidez, à velhice ou a um afastamento forçado. Mas a lógica deveria ser exatamente o oposto: é muito mais valioso tratar da sucessão com o fundador ainda atuante.
Isso permite que ele transmita conhecimento e valores, ensine, na prática, como tomar decisões e acompanhe o desempenho dos sucessores.
Isso não significa que na sua ausência, a sucessão não possa acontecer. Mas a presença ativa facilita uma transição familiar mais estratégica, menos traumática e mais alinhada com a cultura da fazenda.
Holding rural: o que é e o que não é?
Outro tema que aparece com frequência no agro é a tal da holding ou “holding rural”. É importante ser direto: holding não é cofre inviolável, nem sinônimo de blindagem total de patrimônio.
Em regra, essa estrutura é usada para:
i. Organizar o patrimônio;
ii. Otimizar a tributação;
iii. Distribuir melhor riscos e responsabilidades.
Ou seja, a holding aumenta proteção e previsibilidade, mas não cria uma barreira absoluta contra qualquer risco.
A chamada holding rural é, basicamente, a utilização da estrutura de holding prevista na Lei das S.A. (art. 2º, § 3º, da Lei 6.404/76) aplicada ao contexto agrícola ou pecuário, adaptada à realidade de fazendas, granjas, lavouras e atividades de pecuária e agroindústria.
Ela é uma ferramenta dentro do planejamento, não o planejamento todo.
O papel da família na sucessão: o maior ativo do negócio
No agronegócio, a maior parte das fazendas tem uma família por trás e é aí que a sucessão pode andar ou travar.
O planejamento sucessório precisa alinhar gestão (quem decide), propriedade (quem é dono) e família (relações e expectativas). Matrículas em ordem e quotas bem divididas não resolvem se há briga entre irmãos, sensação de injustiça ou favoritismo.
Por isso, o foco do planejamento deve ser nas pessoas. Sem alinhamento familiar, terra, máquinas e rebanho ficam vulneráveis.
Por onde começar a sucessão no agronegócio?
O primeiro passo é simples no papel, mas difícil na prática: falar sobre sucessão.
A família precisa conversar sobre o futuro da fazenda, quem quer (e pode) tocar o negócio, quais valores quer manter e como serão tratados herdeiros que não atuam no dia a dia. Evitar o tema só aumenta o risco de conflito.
Em estruturas mais complexas, várias fazendas, atividades diferentes ou conflitos já presentes, é comum buscar apoio de advogados especializados, consultores e, em alguns casos, profissionais da área de saúde mental para ajudar a mediar expectativas.
Depois do diálogo vem o diagnóstico: entender onde a fazenda está e onde a família quer chegar. Isso inclui olhar para:
- As atividades atuais (grãos, gado, florestas, integração, agroindústria);
- Os processos críticos (compras, manejo, armazenagem, vendas, pessoas);
- Os riscos e oportunidades (clima, mercado, crédito, questões ambientais);
- Os planos da família (manter, crescer, diversificar, arrendar ou vender parte).
Assim, a sucessão deixa de ser uma decisão baseada apenas na intuição e passa a se apoiar em informações concretas.
Sucessão exige diálogo e organização
Gostar da terra é importante, mas não basta para liderar uma empresa rural. É recomendável que o sucessor seja preparado para uma gestão profissional, com base em formação técnica (agronomia, zootecnia, veterinária, administração, contabilidade ou áreas afins), vivência prática na fazenda, participação gradual nas decisões e capacitação em temas como finanças, governança e tecnologia no campo.
Quanto mais gradual e acompanhada pelos líderes atuais for essa transição, menor o choque de estilo entre gerações.
A sucessão familiar no agronegócio vai além do jurídico: envolve gestão, família e estratégia de longo prazo. Planejar é, em última análise, investir na próxima “safra” da família. Quando a sucessão é tratada com antecedência, método e apoio técnico, a família protege o negócio, preserva o legado construído ao longo dos anos e entrega à próxima geração não só patrimônio, mas um empreendimento rural preparado para se manter competitivo.
Assim como a boa safra começa no planejamento, a boa sucessão começa no diálogo e na organização.
Sucessão no agronegócio na prática: a história de quem viveu o processo
Quer entender a sucessão além da teoria? Ouvir quem viveu o processo na prática pode fazer toda a diferença.
No MF Cast, Daniel Rabelo compartilha sua experiência real na sucessão familiar no agro e os aprendizados que hoje aplica ajudando outras famílias rurais.