Um dos pontos mais interessantes destacados durante a entrevista é que, atualmente, a agricultura tem desempenhado papel fundamental na modernização da pecuária brasileira.
O custo para formação ou reforma de pastagens aumentou significativamente nos últimos anos. Fertilizantes, corretivos e insumos ficaram mais caros, tornando cada vez mais difícil recuperar áreas degradadas apenas com recursos da atividade pecuária.
Ao inserir a lavoura dentro do sistema, parte desses investimentos passa a ser absorvida pela produção agrícola, permitindo formar pastagens mais produtivas sem elevar tanto os custos exclusivos da pecuária.
Como consequência, o produtor consegue produzir mais arrobas por hectare utilizando justamente o alimento mais barato para bovinos: o pasto de qualidade.
A pecuária também ajuda a agricultura
O benefício, porém, não acontece apenas para quem cria gado.
Produtores exclusivamente agrícolas também podem aumentar a rentabilidade ao introduzir bovinos na propriedade.
Além da geração de uma nova fonte de receita, o pastejo auxilia no manejo da cobertura vegetal, melhora a ciclagem de nutrientes, contribui para a qualidade do solo e reduz os riscos econômicos decorrentes de uma única cultura.
Em vez de depender exclusivamente do desempenho do milho safrinha, o produtor passa a diversificar sua renda utilizando uma atividade complementar.
O boi safrinha transforma um período de risco em oportunidade
Um dos conceitos apresentados por Michel Castilhos é o chamado “boi safrinha”.
Após a colheita da soja, a área recebe o plantio do capim. Em aproximadamente 60 dias, forma-se uma pastagem capaz de sustentar bovinos durante cerca de 150 dias.
Nesse período, animais em recria aproveitam uma forragem de elevada qualidade nutricional, produzindo ganho de peso consistente até o momento em que a área precisa ser novamente preparada para o plantio da soja.
Dessa forma, o espaço que antes seria destinado exclusivamente ao milho pode gerar receita por meio da produção de carne, com menor exposição aos riscos climáticos em determinadas regiões.
Planejamento é o principal fator de sucesso na ILP
Apesar dos excelentes resultados, Michel Castilhos alerta que a Integração Lavoura-Pecuária não possui receita pronta.
Cada propriedade apresenta características próprias de clima, solo, logística, disponibilidade de água, estrutura, categoria animal e calendário agrícola.
Por isso, o sucesso depende de planejamento detalhado, escolha adequada das forrageiras, manejo correto da suplementação, dimensionamento da lotação animal e cronograma rigoroso para entrada e saída dos bovinos.
Segundo o pesquisador, a tecnologia precisa ser implantada corretamente para que o produtor obtenha todos os benefícios esperados.
Caso prático: produtor substituiu o milho safrinha por boi e lucrou cerca de R$ 6 mil por hectare
Para comprovar que a Integração Lavoura-Pecuária vai além da teoria, Michel Castilhos apresentou um projeto desenvolvido em parceria com um produtor de Santa Cruz do Rio Pardo (SP).
A propriedade destinou 80 hectares para implantar um modelo de ILP, substituindo o milho safrinha pela recria de bovinos em parte da área.
O sistema foi planejado para aproveitar ao máximo cada etapa do ciclo produtivo. O planejamento organizou todas as operações para aumentar a eficiência da área e maximizar a rentabilidade.. Após a colheita da soja, toda a área recebeu pastagem. Durante aproximadamente 150 dias, os animais permaneceram no chamado boi safrinha.
Em seguida, metade da área voltou para a soja, enquanto a outra metade permaneceu com pastagem para dar continuidade ao ganho de peso dos bovinos.
Os resultados começaram a aparecer ainda na primeira fase da recria. Em cerca de cinco meses, o sistema gerou aproximadamente R$ 500 por hectare, demonstrando que a utilização da área durante a entressafra já era economicamente viável.
No entanto, foi ao final do ciclo completo que o potencial da estratégia ficou evidente. O projeto alcançou um lucro líquido próximo de R$ 6 mil por hectare com manejo adequado, suplementação e planejamento. Esse desempenho foi superior ao registrado na sucessão tradicional de soja e milho nas condições avaliadas.
Além do ganho financeiro, o sistema proporcionou outro benefício importante: reduziu a dependência do milho safrinha, uma cultura cada vez mais exposta aos riscos climáticos em diversas regiões do país.
Dessa forma, o produtor conseguiu diversificar sua fonte de renda, aumentar a eficiência da propriedade e tornar o negócio mais resiliente diante das oscilações do mercado e do clima.
A Integração Lavoura-Pecuária não substitui todas as áreas de milho
Michel também faz uma importante ressalva.
Algumas regiões, como o norte de Mato Grosso, ainda apresentam excelente desempenho no milho safrinha. Nessas áreas, o clima favorece altas produtividades e mantém a cultura altamente competitiva.
Nesses casos, o produtor deve utilizar a ILP de forma estratégica, principalmente em áreas com maior risco climático, menor produtividade ou menor retorno econômico.
Ou seja, a decisão deve sempre considerar os números da propriedade, e não apenas tendências de mercado.
Integração é sinônimo de eficiência, não de modismo
A Integração Lavoura-Pecuária deixou de ser apenas uma alternativa experimental. Atualmente, é uma estratégia consolidada para aumentar a produtividade da fazenda. Ao mesmo tempo, melhora a qualidade do solo, diversifica a renda do produtor e reduz os riscos da produção.
Quando bem planejado, o sistema permite aproveitar melhor cada hectare da fazenda, gerando ganhos tanto para agricultores quanto para pecuaristas.
A Integração Lavoura-Pecuária vai além da substituição de culturas. O sistema integra agricultura e pecuária para aumentar a eficiência da fazenda. Como resultado, o agronegócio se torna mais sustentável, resiliente e lucrativo.
Quer entender, na prática, como implantar a Integração Lavoura-Pecuária na sua propriedade, quais erros evitar e quais resultados produtores já estão alcançando?
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