Marcos Abud: da entrega de esporas à presidência da Liga Nacional do Rodeio

Marcos Abud: da entrega de esporas à presidência da Liga Nacional do Rodeio

Marcos Abud construiu sua trajetória no rodeio desde a juventude, passou pela direção das provas em Barretos e hoje preside a Liga Nacional do Rodeio. Em entrevista ao MF Cast, ele relembrou momentos que ajudaram a transformar o rodeio brasileiro e falou sobre os próximos passos do setor.

A história de Marcos Abud se mistura com a história do rodeio em Barretos. Nascido na cidade, ele acompanhou a Festa do Peão desde a infância e, ainda jovem, começou a frequentar os bastidores do evento por influência do tio, que fazia parte de Os Independentes.

O contato com o rodeio, que inicialmente acontecia entre a família e as atividades da festa, acabou se transformando em uma trajetória profissional. Primeiro, Marcos ajudou na organização das provas. Depois, tornou-se diretor de rodeio. Anos mais tarde, chegou à presidência de Os Independentes e, atualmente, está à frente da Liga Nacional do Rodeio.

No MF Cast, ele contou detalhes dessa trajetória e também falou sobre a evolução do rodeio brasileiro, a internacionalização das competições e os desafios para manter o esporte conectado com o público.

A infância em Barretos e o primeiro contato com o rodeio

Antes de assumir funções dentro do rodeio, Marcos Abud viveu uma infância ligada ao campo e à família. Seu pai tinha um sítio e trabalhava com laranja. Ao mesmo tempo, o tio, diretor financeiro de Os Independentes, aproximou Marcos e o irmão da Festa do Peão de Barretos.

Ainda com 12 ou 13 anos, Marcos já frequentava o evento. Na época, ele se interessava pelo movimento da festa, pelos brinquedos e por tudo o que acontecia no Parque do Peão. O rodeio, porém, acabaria ganhando cada vez mais espaço em sua vida.

Aos 18 ou 19 anos, Marcos entrou oficialmente para Os Independentes com o irmão. Pouco depois, recebeu uma função que mudaria sua trajetória.

De responsável pelas esporas a diretor de rodeio

A entrada de Marcos no rodeio aconteceu de maneira quase casual.

Em determinado momento, ele recebeu a missão de cuidar das cadeiras numeradas. A experiência não agradou. Por isso, Marcos preferiu acompanhar um amigo que trabalhava no rodeio.

Foi então que ele chegou ao brete 6.

Naquele período, o rodeio era disputado na modalidade cutiano. Marcos recebeu uma tarefa simples: chamar os peões e entregar as esporas que seriam utilizadas na competição.

Ele permaneceu nessa função durante três ou quatro anos. Depois, recebeu o convite para assumir a direção do rodeio.

Por volta dos 23 anos, Marcos Abud tornou-se diretor de rodeio. Aos 28, chegou à presidência.

A trajetória mostra como a experiência prática dentro das arenas contribuiu para sua formação.

A mudança de Os Independentes e a transformação da Festa do Peão

Marcos também acompanhou uma das grandes transformações da Festa do Peão de Barretos: a mudança do antigo recinto para a área onde o Parque do Peão está instalado atualmente.

Segundo ele, a decisão envolveu riscos. O primeiro ano no novo espaço foi marcado por poeira, lama e falta de estrutura. Ainda assim, o grupo decidiu seguir em frente.

A mudança abriu espaço para uma expansão que alteraria a dimensão da festa. Pouco tempo depois, o estádio começou a ser construído. A estrutura foi levantada em apenas 90 dias, de acordo com o relato de Marcos.

Vista aérea da construção da arena de Barretos em 1985
Construção da nova arena da Festa do Peão de Barretos, em 1985.

A própria Festa do Peão também passou por mudanças na programação. Inicialmente, o evento tinha quatro dias de duração, com o rodeio como principal atração. Na década de 1990, os shows ganharam espaço e a festa ampliou sua programação, chegando a dez dias de evento.

Essa transformação ajudou a criar o modelo de grande evento que o público conhece atualmente.

Como o rodeio de touros ganhou força em Barretos

Outra mudança importante aconteceu dentro da arena. Até então, o rodeio em Barretos era disputado apenas na modalidade cutiano, com montarias em cavalos.

Marcos acompanhou o período em que o rodeio de touros começou a conquistar cada vez mais espaço. Segundo ele, o público demonstrava uma adesão maior às montarias em touros.

Na década de 1990, essa mudança ficou ainda mais evidente. Foi nesse contexto que surgiu a ideia de aproximar Barretos dos grandes competidores norte-americanos.

A estratégia começou com uma conversa que parecia improvável.

Marcos sugeriu que seu irmão, então presidente de Os Independentes, procurasse Tuff Hedeman, campeão mundial nos Estados Unidos. A ideia era trazer competidores norte-americanos para Barretos.

O plano deu certo. Um empresário ajudou a levar cinco competidores para Barretos, incluindo Tuff. No ano seguinte, a competição recebeu 12 dos principais competidores norte-americanos.

A iniciativa marcou uma nova fase do rodeio em Barretos.

A internacionalização do rodeio brasileiro

A chegada dos norte-americanos também aproximou o Brasil do cenário internacional do rodeio.

Marcos contou que os competidores brasileiros passaram a buscar espaço fora do país. Ao mesmo tempo, os norte-americanos passaram a conhecer melhor a estrutura brasileira e as boiadas utilizadas nas competições.

Pódio do 1° Rodeio Internacional de Barretos, com os 5 campeões.
Pódio do 1° Rodeio Internacional de Barretos

A experiência também teria relação com a formação da Professional Bull Riders, a PBR. Marcos reproduziu no podcast uma história segundo a qual alguns dos competidores que participaram do evento em Barretos teriam conversado durante a viagem de volta aos Estados Unidos sobre a criação de uma organização voltada exclusivamente ao rodeio de touros.

Ele, no entanto, deixou claro que não sabe se a organização foi realmente criada durante aquele voo ou se a conversa aconteceu em outro momento.

Esse episódio mostra a dimensão que o rodeio de Barretos começou a alcançar naquele período.

Liga Nacional do Rodeio reúne competidores de diferentes regiões do Brasil

Hoje, Marcos Abud está à frente da Liga Nacional do Rodeio. A organização trabalha com uma estrutura que leva competidores de diferentes cidades e estados até Barretos.

Durante a entrevista, Marcos explicou que a Liga reúne 137 rodeios. Os campeões de cada cidade conquistam o direito de disputar a etapa em Barretos.

Logo da Liga Nacional de Rodeio (LNR).
Logo da Liga Nacional do Rodeio (LNR).

A estrutura também cria oportunidades para competidores de regiões distantes. A Liga passa por diferentes estados brasileiros e reúne campeões que, muitas vezes, não teriam acesso a uma competição desse porte sem esse sistema.

Para Marcos, esse modelo tem um papel importante na descoberta e na valorização de novos talentos.

Porém, estar presente em 137 rodeios não significa que Marcos precise acompanhar pessoalmente cada evento. A Liga trabalha com um sistema de chancela, no qual os eventos parceiros recebem a estrutura da competição, enquanto a organização envia competidores e juízes e coordena a transmissão.

Esse modelo permite ampliar a atuação da Liga sem concentrar toda a operação em uma única equipe. Para Marcos, esse trabalho também depende diretamente do apoio da família. Ele afirma que não seria possível manter essa rotina sem essa estrutura familiar.

MF TV mostra que transmitir rodeio também é explicar o esporte

Para Marcos Abud, ampliar as transmissões é positivo para o rodeio. No entanto, ele destacou que simplesmente colocar uma câmera na arena não é suficiente para conquistar novos espectadores.

Durante a entrevista, Marcos elogiou o trabalho da MF TV em Barretos e ressaltou a importância de explicar a dinâmica das provas.

Foto da bancada responsável por explicar as provas de montaria em touros durante a transmissão do rodeio de Barretos pela MF TV. Na bancada estão  Almir Cambra, Rogério Paitl e Rodrigo Lidon
Bancada da MF TV responsável por explicar as provas de montaria em touros durante a transmissão de Barretos, com Almir Cambra, Rogério Paitl e Rodrigo Lidon.

Segundo ele, muitas modalidades possuem regras e critérios que não são fáceis de compreender para quem não acompanha o esporte. Uma bancada que contextualiza o que acontece na arena ajuda o público a entender, por exemplo, por que um competidor recebeu determinada nota ou por que uma disputa terminou de determinada maneira.

Na avaliação do presidente da Liga, esse formato torna o rodeio mais acessível e pode aproximar o esporte de quem ainda não o conhece. A transmissão deixa de apenas mostrar a competição e passa a ajudar o espectador a acompanhar as regras e o desempenho dos competidores.

Por isso, Marcos defende que quanto mais emissoras transmitirem o rodeio, maior será a exposição do esporte e a possibilidade de alcançar novos públicos.

O futuro do rodeio passa pelo público feminino

Na visão de Marcos Abud, o crescimento do rodeio também depende da ampliação das modalidades e da participação feminina.

Durante a entrevista, ele destacou o Breakaway e o tambor, provas que têm a participação de competidoras mulheres e que, na avaliação do dirigente, podem aproximar ainda mais o público feminino e as famílias do universo do rodeio.

São duas imagens com tela dividida. Na esquerda tem uma competidora de três tambores e na esquerda uma competidora de breakaway.
Provas de Três Tambores e Breakaway.

Marcos contou que já observava o crescimento da participação feminina e defendeu o fortalecimento de um circuito para incentivar novas competidoras. Para ele, esse movimento também movimenta outros segmentos ligados ao cavalo e ao esporte.

Além da competição, ele vê nessas modalidades uma oportunidade para aproximar pais, filhos e outros familiares das arenas. A presença das mulheres também amplia as possibilidades de participação dentro do rodeio e ajuda a transformar o evento em um programa para toda a família.

Essa relação com o público feminino aparece, principalmente, nas modalidades equestres. Para Marcos, provas como o Breakaway e o tambor contribuem para diversificar o rodeio e atrair novas competidoras e espectadores.

Uma nova arena para o rodeio em Barretos

Outro ponto discutido no MF Cast foi a estrutura da Festa do Peão de Barretos.

Para Marcos, a arena atual poderia ganhar uma estrutura específica para o rodeio. A proposta seria construir um espaço coberto, com capacidade para aproximadamente 18 mil a 20 mil pessoas, climatizado e voltado exclusivamente para as provas.

A ideia permitiria separar a experiência do rodeio da programação de shows.

Com isso, o público interessado apenas nas competições poderia ter acesso a ingressos mais acessíveis. Ao mesmo tempo, a estrutura atual poderia continuar recebendo grandes apresentações.

Marcos também destacou a importância de uma arena coberta para reduzir os impactos das condições climáticas e permitir uma utilização mais frequente do espaço.

Rodeio, entretenimento e sustentabilidade financeira

A relação entre rodeio e shows também apareceu na conversa.

Marcos avalia que os dois formatos podem coexistir. No entanto, ele chamou atenção para o aumento dos custos dos grandes shows e para o impacto desse cenário na organização de eventos.

Segundo ele, artistas que custavam valores menores passaram a representar investimentos muito maiores. Além do cachê, um evento envolve estrutura, som, iluminação, hospedagem e outros custos.

Por isso, Marcos considera que existem oportunidades para criar formatos de eventos mais concentrados no rodeio, no esporte e na música country.

A discussão mostra que o futuro do rodeio também envolve encontrar modelos capazes de manter o esporte competitivo e, ao mesmo tempo, aproximá-lo do público.

Rodeio, fé e os valores que acompanham Marcos Abud

A relação de Marcos com o rodeio também passa por valores pessoais.

Durante a entrevista, ele falou sobre sua fé e contou que é católico, participa da missa e costuma fazer suas orações diariamente. Para ele, esse momento traz tranquilidade e conforto antes das atividades.

A fé também se relaciona com a forma como Marcos enxerga o comportamento dentro da arena. Ao contar uma situação envolvendo competidores durante um momento religioso, ele reforçou sua visão sobre respeito ao público e às manifestações que fazem parte da Festa do Peão.

O episódio acrescenta uma dimensão pessoal à trajetória do dirigente. Além disso, Marcos associa sua atuação no rodeio a princípios que considera importantes dentro e fora da arena.

O futuro do rodeio está na aproximação com o público

A trajetória de Marcos Abud mostra como o rodeio passou por diferentes transformações. O esporte cresceu, ganhou novas modalidades, aproximou competidores brasileiros e estrangeiros e passou a ocupar novos espaços de transmissão.

Agora, na visão do dirigente, o próximo passo é tornar essa experiência cada vez mais acessível. Além disso, essa transformação envolve a explicação das regras, a presença de novas modalidades, a participação feminina, a tecnologia e estruturas que valorizem o público interessado nas provas

Nesse cenário, a transmissão também ganha um papel estratégico. Como destacou Marcos, não basta mostrar o que acontece na arena. É preciso explicar o esporte para que mais pessoas consigam acompanhar, entender e se interessar pelo rodeio.

É justamente nessa transformação que a história de Marcos se conecta ao momento atual do setor. Ele começou entregando esporas no brete 6 e chegou à presidência da Liga Nacional do Rodeio. Hoje participa de um movimento que busca levar o rodeio para além da arena e aproximá-lo de novos públicos.

Assista ao episódio completo do MF Cast com Marcos Abud e conheça os bastidores dessa trajetória e as mudanças que estão moldando o futuro do rodeio brasileiro.

Autor

  • Ana Carolina Verri

    Médica Veterinária,
    Especialista em Qualidade do Alimento de Origem Animal.