Cantor relembra no MF Cast os desafios enfrentados desde a infância, o diagnóstico de uma doença genética rara, a revolta que o fez abandonar a música e o momento em que encontrou um novo sentido para sua trajetória
Léo Gomes transformou uma trajetória marcada pela perda progressiva da visão em uma história de música, fé e recomeços. Desde a infância, ele enfrentou consultas, exames e mudanças na rotina até descobrir uma doença genética rara.
No MF Cast, o cantor relembrou os desafios que enfrentou, o período em que abandonou a música e o momento em que encontrou um novo propósito para seguir em frente. Além disso, contou como o aprendizado musical ajudou a desenvolver sua memória, sua audição e sua independência.
A história, porém, não seguiu em linha reta. Aos 18 anos, depois de descobrir que não poderia dirigir, Léo abandonou a música e passou por um período de revolta e incerteza. Mais tarde, voltou a cantar e encontrou na fé uma nova maneira de interpretar a própria trajetória.
A dificuldade de enxergar começou ainda na infância
A infância de Léo parecia normal, mas seus pais perceberam que havia algo diferente quando ele ainda era pequeno. Para assistir televisão, ele precisava se aproximar muito da tela. Mesmo depois de usar óculos, continuava com dificuldade para enxergar.
Por isso, aos quatro ou cinco anos, Léo começou a passar por tratamentos e exames em São Paulo. Como os pais moravam no interior, ele chegou a viver durante alguns anos com a avó em São Roque para ficar mais próximo dos atendimentos.
Naquele período, os médicos ainda não conseguiam identificar exatamente o problema. A princípio, tratavam o caso como miopia e astigmatismo. No entanto, o grau continuava aumentando e os tratamentos não apresentavam o resultado esperado.
Além disso, a dificuldade visual começou a interferir diretamente na escola. Mesmo sentado na primeira carteira, Léo precisava ficar centralizado em relação à lousa para conseguir enxergar todo o conteúdo.
“Se eu ficasse um pouco mais para a esquerda, eu não conseguia enxergar o quadro lá do outro lado.”
Assim, pequenas adaptações passaram a fazer parte da rotina.
O diagnóstico trouxe uma nova realidade
A família continuou buscando respostas. Depois de se mudar para Pompeia, Léo passou por uma nova avaliação em Rio Preto. Dessa vez, os exames indicaram, além da miopia e do astigmatismo, a retinose pigmentar, uma doença degenerativa da retina.
Na época, Léo tinha cerca de 12 anos. A médica explicou que a doença poderia provocar uma perda progressiva da visão. Por isso, recomendou que ele desenvolvesse outros sentidos e aprendesse um instrumento musical.
A partir dali, a música começaria a ocupar um espaço importante na vida de Léo.
Durante o retorno para casa, o patrão de sua mãe, que tinha uma banda de rock, ofereceu-se para ensiná-lo a tocar violão. Léo, entretanto, já tinha outro instrumento em mente: a viola.
O interesse pela música vinha de casa. Seu pai gostava de viola e acompanhava romarias e rodeios. Além disso, Léo cresceu em contato com o sítio, o gado e os cavalos. Por isso, insistiu que queria aprender viola, mesmo que começasse pelo violão.
Léo aprendeu violão sem ter um violão
O método escolhido pelo professor também fez diferença. Em vez de começar diretamente com o instrumento, Léo estudaria primeiro teoria musical.
A estratégia tinha um motivo: além de desenvolver a audição, o professor queria trabalhar a memória para que ele não dependesse de recursos visuais no futuro.
Durante meses, Léo estudou escalas, tons e teoria musical. No entanto, ainda não tinha um violão para colocar o conhecimento em prática.
Em vez de desistir, ele encontrou uma solução própria. Léo desenhava o braço de um violão no próprio braço e usava o desenho para estudar as escalas.
A ideia surgiu depois que ele viu professores utilizarem o próprio braço para demonstrar posições e notas. Então, passou a reproduzir o método no próprio corpo.
Durante seis meses, ele manteve a rotina de estudos. No início, queria provar que o método não funcionaria. Porém, quando finalmente recebeu um violão e precisou aplicar o que havia aprendido, percebeu que a estratégia tinha dado certo.
O professor entregou uma cifra simples e pediu que Léo aprendesse a música. Em poucos minutos, ele conseguiu tocar.
A partir daquele momento, ganhou o próprio violão para continuar estudando. Mais tarde, aplicou o mesmo conhecimento à viola e ampliou sua formação musical.

A música também fortaleceu a memória
O método desenvolvido durante a adolescência continuou influenciando a forma como Léo toca até hoje.
Segundo ele, a teoria musical permitiu que deixasse de depender de cifras e videoaulas. Ao ouvir uma música, consegue identificar a tonalidade e, a partir disso, encontrar as notas possíveis.
Além disso, o treinamento ajudou a desenvolver sua memória. Léo contou que consegue ouvir uma música algumas vezes e memorizar a letra.
Por isso, também passou a dar aulas de violão e tenta ensinar seus alunos utilizando parte do método que recebeu.
A teoria não ficou limitada ao violão. Como aprendeu fundamentos musicais, Léo conseguiu aplicar o conhecimento em outros instrumentos de corda, como a viola.
A perda de visão aumentou e mudou seus planos
Enquanto Léo avançava na música, sua visão continuava diminuindo.
A maior queda aconteceu por volta dos 17 e 18 anos. Ele conta que, mesmo sentado na primeira carteira, já não conseguia enxergar a lousa. Além disso, passou a precisar de adaptações no material escolar e de ajuda da mãe e dos primos.
A dificuldade também chegou ao trabalho. Léo precisava enxergar o ônibus que utilizava para se deslocar e, quando isso deixou de ser possível, precisou adaptar sua rotina.
Mesmo assim, encontrou pessoas dispostas a ajudá-lo. No supermercado onde trabalhou, por exemplo, a equipe adaptou etiquetas e materiais para facilitar sua rotina.
Entretanto, naquele mesmo período, uma nova busca por respostas mudaria novamente sua trajetória.
O mapeamento genético revelou uma doença que nem estava catalogada
Depois de anos de tratamento, a família decidiu buscar uma segunda opinião. Em Assis, Léo passou por uma nova avaliação médica com o Dr. Maurício e descobriu que ainda não era possível confirmar exatamente o que estava causando a perda das células da retina.
O médico então indicou um mapeamento genético para investigar melhor a doença.
A busca pelo exame levou a família até São Paulo, onde Léo passou por uma consulta com a Dra. Juliana Salun, que realizou o mapeamento genético. Na época, o exame custava R$ 16 mil, um valor que a família não tinha disponível.
Por isso, amigos e parentes de Pompeia se mobilizaram para ajudar. Eles organizaram ações, venderam alimentos e fizeram uma rifa para conseguir o dinheiro necessário.
Uma parente também decidiu pagar o exame antecipadamente, com a condição de que Léo devolvesse o valor depois. Assim, o procedimento foi realizado e o material seguiu para os Estados Unidos para análise genética.
Seis meses depois, chegou o resultado.
A médica explicou que Léo não tinha nenhuma das três possibilidades consideradas anteriormente. O resultado apontava para uma alteração relacionada ao gene PRO1 e, segundo o relato feito no episódio, a doença ainda não estava catalogada devido à sua raridade.
Naquele momento, Léo tinha 18 anos e cerca de 30% de visão. A médica explicou que não havia tratamento para interromper a degeneração. A alternativa seria ajustar o grau dos óculos para tentar melhorar sua qualidade visual.
A notícia de que não poderia dirigir tirou o chão de Léo
O diagnóstico já havia mudado sua vida. Contudo, outra informação atingiu Léo de maneira ainda mais direta: ele não poderia dirigir.
Aos 18 anos, já tinha comprado um carro, guardado dinheiro para tirar a habilitação e estudava para as provas do Detran. Além disso, já dirigia em algumas situações.

De repente, um dos principais objetivos que havia perseguido deixou de ser possível.
Durante a viagem de São Paulo para São Roque, Léo ficou em silêncio. Naquele momento, não sabia qual caminho seguir. Até então, tinha trabalhado em diferentes lugares e direcionado parte de seus esforços para conquistar o carro e a habilitação.
A música, naquele período, ainda não representava uma carreira para ele.
Por isso, a notícia provocou uma grande revolta. Léo vendeu o violão, a viola, a caixa de som, a mesa e os demais equipamentos que tinha adquirido para começar a fazer apresentações.
Ele abandonou a música e ficou cerca de dois anos sem cantar.
A música voltou para a vida de Léo

Depois de dois anos afastado, Léo voltou a ter contato com a música de uma maneira inesperada.
Seu pai trabalhava dirigindo um caminhão de amendoim. Em determinado momento, Léo voltou a tocar com o patrão do pai. Os dois sentaram à sombra do caminhão e começaram a tocar.
A partir daquele encontro, surgiu o convite para formar uma dupla.
Léo aceitou e voltou aos palcos. Inicialmente, participou de uma dupla que começou a vender shows pouco antes da pandemia. Depois, passou por outras experiências até consolidar sua trajetória como cantor.
Mais tarde, Léo passou a seguir carreira solo e continuou estudando música. A experiência acumulada também ajudou a desenvolver uma característica que chama atenção durante seus shows: ele consegue receber pedidos de músicas e, muitas vezes, tocar canções que não fazem parte do repertório previamente preparado.
A família se tornou parte fundamental da trajetória
Ao longo dessa caminhada, Léo também contou com o apoio constante da família.
O pai e a mãe participaram de diferentes momentos de sua adaptação. Hoje, o pai continua acompanhando Léo em apresentações e deslocamentos. Além disso, os dois desenvolveram sinais corporais que ajudam na comunicação durante os shows.
Léo explicou que aprendeu a interpretar pequenos movimentos do pai. Com a mão apoiada no ombro dele, consegue entender para onde precisa ir durante os eventos.
Assim, a música não representa apenas uma atividade profissional. Ela também envolve uma rede de apoio construída ao longo dos anos.
Da revolta à pergunta: “para que você?”
A relação de Léo com a fé também passou por momentos difíceis.
Depois do diagnóstico, ele se revoltou com Deus e se afastou da igreja. Durante um acampamento, entretanto, decidiu contar para outras pessoas tudo o que havia vivido, incluindo sua revolta e seu afastamento.
Foi então que recebeu uma pergunta que mudou sua maneira de interpretar a própria história.
Uma monitora disse que ele estava fazendo a pergunta errada. Em vez de perguntar “por que eu?”, deveria perguntar “para que eu?”.
A mudança parece pequena, mas representou uma virada para Léo.
Ele começou a olhar para a própria trajetória de outra maneira. Afinal, se não tivesse passado pela doença, talvez não tivesse entrado na música. E, sem a música, não saberia onde estaria naquele momento.
Assim, a pergunta deixou de buscar uma explicação para a doença e passou a procurar um propósito para tudo aquilo que havia vivido.

Hoje, Deus ocupa o centro de tudo
Depois dessa experiência, Léo passou a enxergar a fé de uma maneira diferente.
Ao ser questionado sobre o que Deus representa atualmente em sua vida, respondeu que Ele é “o centro de tudo”. Além disso, afirmou que procura colocar Deus à frente das coisas que pretende realizar.
Mesmo assim, Léo reconhece que a fé ainda passou por momentos de dúvida.
Um deles aconteceu durante a gravação do DVD Léo Gomes no Quintal de Casa.
A equipe montou toda a estrutura para a gravação, incluindo cenário, iluminação e som. Entretanto, enquanto Léo estava a caminho de Pompeia, seu pai avisou que uma nuvem escura estava sobre a cidade.
Quando chegou perto de casa, a chuva começou a atingir justamente o local da gravação. Por isso, a equipe precisou desmontar a estrutura que já estava pronta.
Mais uma vez, Léo se perguntou se Deus estaria colocando outro obstáculo em seu caminho. Porém, depois das sete horas, a chuva parou e todos voltaram a montar os equipamentos.
Então, antes de retomar a gravação, Léo voltou a conversar com Deus. Dessa vez, retomou a pergunta que havia aprendido a fazer: “Para que você está fazendo isso?”
Uma história de superação que continua sendo escrita
A trajetória de Léo Gomes reúne momentos de perda, adaptação, música, família e fé. Desde a infância, ele precisou aprender a conviver com uma condição visual que avançou progressivamente.
No caminho, recebeu um diagnóstico raro, precisou abandonar planos pessoais e chegou a se afastar completamente da música. Entretanto, também encontrou no aprendizado musical uma ferramenta para desenvolver sua audição, sua memória e sua independência.
Depois de retornar aos palcos, Léo transformou a música em profissão. Além disso, passou a compartilhar o conhecimento que recebeu como professor de violão.
Mais do que superar cada obstáculo isoladamente, Léo encontrou uma nova maneira de interpretar sua própria história. A pergunta “por que eu?” deu lugar ao “para que eu?”. A partir dessa mudança, a música passou a ocupar um espaço ainda maior em sua vida.
Hoje, Léo segue cantando, dando aulas e construindo sua trajetória ao lado da família. Para ele, a fé também ganhou um novo significado: Deus está no centro de tudo.
Assista ao episódio completo do MF Cast com Léo Gomes e conheça essa história de música, superação e fé.