Do Clube da Viola aos grandes rodeios: a trajetória de Matheus Calil no entretenimento sertanejo

Do Clube da Viola aos grandes rodeios: a trajetória de Matheus Calil no entretenimento sertanejo

Empresário relembra a criação do Clube da Viola, o movimento do sertanejo universitário e a transformação dos rodeios em grandes experiências de entretenimento

A música sertaneja mudou muito nas últimas décadas. Novos artistas surgiram, o público se renovou e os grandes rodeios passaram a reunir esporte, shows, marcas e experiências cada vez mais estruturadas. Matheus Calil acompanhou boa parte dessa transformação de perto e também construiu sua trajetória dentro dela.

No episódio 187 do MF Cast, apresentado por Roberto Lucas e Walter Celani, o empresário relembra mais de 30 anos de atuação no entretenimento sertanejo. Durante a conversa, ele conta como uma paixão que começou ainda na infância se transformou em profissão, fala sobre a criação do Clube da Viola e relembra o movimento que aproximou a música sertaneja dos jovens e das universidades.

Além disso, Matheus explica como sua atuação avançou para os grandes eventos e rodeios, analisa as mudanças no comportamento do público e fala sobre os desafios de empreender em um mercado no qual uma única decisão pode representar investimentos milionários.

A ligação com o agro começou ainda na infância

Antes de transformar a música e os eventos em profissão, Matheus já convivia com o campo. O avô criava gado Gir Leiteiro e a rotina nas fazendas fez parte de sua infância.

Matheus Calil durante entrevista no MF Cast, usando chapéu e falando ao microfone
Matheus Calil relembra no MF Cast a ligação com o agro desde a infância.

Ao mesmo tempo, a música sertaneja também estava presente. A convivência com o ambiente rural, os animais e as tradições do interior ajudou a construir uma relação que continuaria acompanhando sua trajetória profissional.

Na juventude, Matheus chegou a estudar Direito na PUC e Administração na FAAP. Posteriormente, ingressou na FEA-USP e também trabalhou com a mãe no setor imobiliário.

Entretanto, enquanto seguia esse caminho, um projeto ligado à música sertaneja começava a crescer e exigia cada vez mais dedicação.

Como nasceu o Clube da Viola?

Em maio de 1994, nasceu o Clube da Viola. A proposta começou a partir de encontros entre amigos e da vontade de reunir pessoas em torno da música sertaneja.

As chamadas Terçanejas passaram a acontecer em Ribeirão Preto. Inicialmente, reuniam cerca de 80 pessoas. Depois vieram 200, 500 e, posteriormente, aproximadamente 1.500 pessoas em uma única terça-feira.

Além de promover encontros, o projeto buscava valorizar diferentes vertentes da música sertaneja e preservar a história construída por nomes que marcaram o gênero.

Com o crescimento do público, o Clube da Viola começou a ganhar espaço em outras cidades. Em seguida, vieram artistas, shows e o interesse de grandes gravadoras. Em determinado momento da trajetória, a operação chegou a trabalhar simultaneamente com diversas duplas sertanejas.

Foi nesse período que Matheus tomou uma das decisões mais importantes de sua vida profissional: deixou o curso de Administração na USP, já no quarto ano, para concentrar seus esforços no Clube da Viola e na música sertaneja.

A aproximação entre o sertanejo e as universidades

A renovação do público também ocupa uma parte importante da conversa no MF Cast.

Durante os anos 1990, o sertanejo começou a alcançar um público mais jovem e a conquistar espaço entre estudantes e universitários. O Clube da Viola participou desse movimento ao levar o gênero para ambientes e eventos frequentados por essa nova geração.

Show sertanejo inspirado nos anos 1990, com dupla no palco e público jovem acompanhando a apresentação
Nos anos 90, o sertanejo conquistou um público mais jovem e ganhou espaço entre estudantes e universitários.

Nesse contexto, ganhou força a expressão “sertanejo universitário”, que anos depois se tornaria conhecida nacionalmente e passaria a identificar uma das fases mais populares da música sertaneja brasileira.

Ao mesmo tempo, o gênero continuou se transformando. Novos artistas, sonoridades e formatos apareceram, enquanto elementos da música caipira e da cultura do interior permaneceram presentes.

Da música para os grandes rodeios

A trajetória no entretenimento avançou também para outro universo diretamente ligado à cultura sertaneja: os rodeios.

Entre 2004 e 2005, surgiu o Ribeirão Rodeo Music, mesmo diante da desconfiança de que Ribeirão Preto teria espaço para receber um evento desse porte.

Com o passar dos anos, o projeto cresceu e passou a reunir diferentes elementos dentro de uma mesma experiência. Além dos grandes shows, entram em cena as montarias, as provas equestres, a cultura sertaneja e a presença de marcas interessadas em se comunicar com esse público.

Essa integração entre música, esporte e entretenimento se tornou uma característica importante dos grandes rodeios brasileiros.

Muito além de um grande show

Um dos assuntos discutidos no episódio é justamente a transformação dos rodeios em experiências cada vez mais completas.

O público atual não avalia apenas quem estará no palco. Estrutura, organização, atendimento, conforto, alimentação, banheiros e facilidade de acesso também fazem parte da percepção sobre um evento.

Por isso, a profissionalização passou a ocupar um espaço ainda maior no setor. Um grande artista pode continuar sendo um importante atrativo, mas sozinho não garante uma experiência positiva para quem compra o ingresso.

Ao mesmo tempo, eventos consolidados conseguem construir uma relação tão forte com o público que a própria marca da festa passa a influenciar a decisão de compra.

Esporte e música dividem a mesma arena

Embora os shows tenham enorme visibilidade, o esporte continua sendo um dos pilares das tradicionais festas do peão.

Essa relação levanta uma discussão importante sobre o equilíbrio dos investimentos. Enquanto os cachês dos grandes artistas cresceram nos últimos anos, a valorização dos competidores também se tornou parte do debate dentro do setor.

Além das montarias, outras manifestações ajudam a manter a ligação dos eventos com suas origens. Música caipira, moda de viola, provas equestres e diferentes tradições do interior fazem parte de uma cultura que vai além do palco.

Dessa forma, o rodeio se apresenta como um encontro entre esporte, música, tradição e entretenimento.

Barretos mostra a força da cultura sertaneja

A Festa do Peão de Barretos também aparece como exemplo ao longo da conversa.

O evento reúne diferentes públicos e mostra como a cultura sertaneja pode ocupar espaços que vão muito além das montarias. Chapéus, botas e outros elementos do universo country passaram a representar também um sentimento de pertencimento para quem frequenta essas festas.

Show sertanejo em arena lotada durante a Festa do Peão de Barretos, com público usando chapéus e palco iluminado
A Festa do Peão de Barretos une música, entretenimento e cultura sertaneja diante de milhares de pessoas.

Ao mesmo tempo, a presença de empresas de diferentes setores demonstra o interesse comercial em um público que se identifica fortemente com esse universo.

Esse movimento amplia as possibilidades de investimento e ajuda a aproximar ainda mais rodeios, agronegócio, marcas e entretenimento.

O público passou a exigir experiências melhores

A profissionalização dos eventos também mudou a relação com quem está do outro lado dos portões.

Depois da pandemia, principalmente, conforto e qualidade dos serviços ganharam ainda mais importância. O consumidor pode estar disposto a pagar mais por uma experiência, porém também espera receber uma estrutura compatível com o valor investido.

Por isso, antigos problemas que muitas vezes eram considerados normais em grandes festas passaram a pesar mais na avaliação do público.

A mudança obriga organizadores a pensar em toda a jornada de quem participa do evento, desde a compra do ingresso até o momento de ir embora.

Um mercado de grandes oportunidades e grandes riscos

Por trás das arenas lotadas existe também um negócio que envolve altos investimentos e uma série de variáveis.

Antes da abertura dos portões, grande parte dos custos já está definida. Estrutura, artistas, equipes, fornecedores, segurança e diversas outras despesas fazem parte da operação. A receita, porém, depende da resposta do público.

Além disso, fatores externos podem mudar completamente o resultado. Chuva, vento e outros imprevistos são capazes de afetar diretamente a realização e a arrecadação de uma festa.

Por isso, conhecimento, planejamento financeiro, experiência e capacidade de tomar decisões sob pressão são fundamentais para quem pretende permanecer no mercado de eventos.

O entretenimento presencial continua se transformando

O futuro do entretenimento também ganha espaço na parte final do episódio.

A experiência vivida durante a pandemia trouxe mudanças importantes para o setor. Ainda assim, os encontros presenciais voltaram a mostrar sua força, principalmente quando conseguem entregar algo que o público considera especial.

A tendência é que essa busca por experiências aumente. Ver um artista de perto, acompanhar uma montaria dentro da arena ou participar de um grande evento envolve sensações difíceis de reproduzir fora daquele ambiente.

Por outro lado, a profissionalização tende a aumentar a concorrência. Eventos que mantêm estruturas pouco eficientes ou não acompanham as novas exigências do consumidor enfrentam dificuldades maiores para permanecer no mercado.

Uma trajetória construída entre música, agro e entretenimento

A história de Matheus Calil acompanha diferentes fases do mercado sertanejo brasileiro.

O que começou com a paixão pelo campo e pela música avançou para o Clube da Viola, chegou aos grandes eventos e encontrou nos rodeios um novo espaço de atuação.

Ao longo de mais de três décadas, o setor mudou, o público mudou e as festas também precisaram evoluir. Entretanto, música, esporte e cultura do interior continuam conectando diferentes gerações.

No episódio 187 do MF Cast, essa trajetória serve como ponto de partida para uma conversa sobre os bastidores de um mercado que movimenta artistas, competidores, empresas, produtores e milhares de pessoas apaixonadas pela cultura sertaneja.

Assista ao episódio completo do MF Cast com Matheus Calil no canal do MF Rural no YouTube.

Fonte: MF TV.

Autor

  • Amanda Cássia Parra

    Especialista em Agronegócio, Especialista em Topografia e Sensoriamento Remoto, Tecnóloga em Mecanização em Agricultura de Precisão e Analista de Marketing.