Pedro Henrique, conhecido como Berranteiro das Américas, transformou uma viagem de Barretos aos Estados Unidos em uma aventura que envolveu estrada, mulas, cultura e fé.
Depois de sair do Brasil de caminhonete, atravessar 16 países e chegar aos EUA, Pedro iniciou uma nova etapa da jornada: voltar ao Brasil acompanhado por duas mulas e pelo cachorro Bastião.
De Barretos aos Estados Unidos: onde tudo começou
A escolha de Barretos como ponto de partida não aconteceu por acaso.
Pedro tem uma relação antiga com a cidade. Além de ser tetracampeão de berrante em Barretos, frequenta a Festa do Peão desde os 19 anos e também participou da construção de estruturas do Parque do Peão como engenheiro civil.
Por isso, Barretos representava muito mais do que um ponto no mapa. Era o lugar que fazia parte da própria história do Berranteiro.
Do outro lado da jornada estava Fort Worth, no Texas, cidade que Pedro considera uma espécie de capital do rodeio nos Estados Unidos. A ideia, portanto, era conectar dois importantes símbolos da cultura do rodeio: Barretos e Fort Worth.
A partida aconteceu em 28 de agosto de 2023, no Parque do Peão. Antes disso, porém, foram dois anos de planejamento.
Pedro precisou pensar nas rotas, nos custos, nos possíveis apoios e, principalmente, em como transformar uma ideia tão diferente em realidade.
Quando disseram que Pedro estava ficando doido
O projeto também precisou superar outro obstáculo: a opinião das pessoas.
A ideia de sair do Brasil de caminhonete já parecia difícil para muita gente. Quando Pedro explicou que pretendia voltar dos Estados Unidos montado em mulas, as reações ficaram ainda mais fortes.
Ele chegou a ouvir que estava ficando doido e, em determinado momento, começou até a questionar a própria decisão.
Foi então que chegou a uma conclusão que se tornou uma das frases mais marcantes de sua história:
“Não é loucura, é vontade de viver.”
A partir daí, Pedro decidiu trabalhar mais em silêncio. Quando o projeto já estava praticamente todo planejado, começou a divulgá-lo nas redes sociais para buscar apoio e patrocínio.
A estratégia também fazia parte da viagem. Afinal, ele sabia que precisaria construir uma comunidade capaz de acompanhar a jornada e ajudar a manter o projeto em movimento.
Por que Pedro foi de caminhonete e voltou de mula?
Pedro já planejava voltar de mula antes mesmo de deixar Barretos.
A ideia de voltar de mula já existia. No entanto, durante os estudos para a viagem, percebeu que seria mais viável fazer o trajeto de volta com animais adquiridos nos Estados Unidos.
Além das questões sanitárias envolvendo a circulação de animais entre diferentes países, havia outro fator importante: conhecer previamente as rotas que seriam utilizadas no retorno.
Assim, a caminhonete serviu como uma espécie de preparação para a segunda parte da aventura.
Durante aproximadamente sete meses, Pedro dirigiu até chegar à fronteira dos Estados Unidos. Nesse período, passou por 16 países, conheceu diferentes lugares e produziu conteúdo para a internet.
Ele dormia em uma barraca instalada sobre a caminhonete e, ao mesmo tempo, editava e publicava os próprios vídeos.
Além de conhecer as estradas, Pedro buscava pessoas que poderiam ajudá-lo futuramente. Essa estratégia acabaria sendo fundamental para encontrar as duas mulas que precisava para retornar ao Brasil.
Bastião acompanhou Pedro desde o início
Se Pedro era o responsável pelo projeto, Bastião rapidamente ganhou um papel importante na história.
O cachorro acompanhou o Berranteiro durante a jornada e se tornou uma presença constante nos registros da viagem. Em determinado momento, inclusive, a preocupação com a segurança do animal fez Pedro mudar parte do planejamento.

Inicialmente, a ideia era fazer o retorno apenas com as mulas e Bastião. Depois de enfrentar problemas com o cachorro durante a viagem, entretanto, Pedro decidiu contar com o apoio de uma caminhonete e de um médico-veterinário.
Gustavo Palone, médico veterinário, passou a acompanhá-lo a partir do México, oferecendo suporte durante o trajeto.
Mesmo com essa estrutura, Bastião ainda protagonizaria um dos momentos mais difíceis de toda a jornada.
A busca pelas duas mulas que levariam Pedro de volta ao Brasil
Depois de chegar aos Estados Unidos, Pedro começou a procurar os animais que utilizaria no retorno.
A busca, porém, foi muito mais complicada do que ele imaginava.
Pedro passou por diferentes regiões dos Estados Unidos, incluindo Nova York, Flórida, Califórnia e Idaho, antes de retornar ao Texas em busca das mulas.
Uma das cenas mais marcantes aconteceu na Times Square. Pedro parou a caminhonete, levou Bastião para o alto da estrutura da barraca, ergueu a bandeira do Brasil e tocou o berrante no coração de Nova York.
Depois disso, a procura pelos animais continuou.
Em um encontro de muladeiros na Califórnia, Pedro esperava encontrar alguém disposto a ajudá-lo. Entretanto, ninguém apareceu com uma solução imediata.
Os preços das mulas nos leilões também estavam muito acima do que ele poderia pagar. Uma das mais baratas que encontrou custava US$ 14 mil, enquanto Pedro havia conseguido reunir cerca de R$ 10 mil em uma rifa.
Comprar os animais daquela maneira, portanto, estava fora da realidade do projeto.
Um encontro nos Estados Unidos mudou os planos
Foi então que Pedro chegou até a propriedade de John Logsdon, em Oklahoma.
O encontro começou como uma simples amizade. John não prometeu as mulas imediatamente. Porém, depois de conhecer a história do brasileiro, decidiu ajudá-lo.
Uma das mulas já estava esperando por Pedro quando ele chegou ao rancho.
Havia apenas um detalhe: ela nunca tinha sido domada.
Pedro havia aprendido conceitos de doma durante o período em que esteve com Monty Roberts. Por isso, precisou colocar esse conhecimento em prática para preparar o animal para a jornada.
Durante aproximadamente dois meses, ficou acampado na propriedade de John e trabalhou na preparação das mulas.
A segunda também veio de John. O animal era menor e, justamente por isso, chamou a atenção de Pedro. A ideia era utilizá-la para transportar parte da carga durante a travessia.
Foi assim que o Berranteiro conseguiu as duas companheiras que fariam parte do retorno ao Brasil.

Mais do que uma viagem: levar a cultura do peão de boiadeiro
Desde o início, Pedro sabia que não queria fazer uma viagem qualquer.
Dentro da caminhonete, levou parte das tradições que pretendia apresentar pelo caminho: arreios, bruacas, cangaia, cutiano, tralhas de alpaca e outros elementos ligados à cultura do peão de boiadeiro.
Para ele, não faria sentido atravessar diferentes países sem mostrar aquilo que considerava parte da própria identidade.
O objetivo era divulgar o berrante, o mundo da mula e, principalmente, a cultura do peão de boiadeiro.
Dessa forma, a viagem também se transformou em uma maneira de apresentar parte da cultura brasileira para pessoas que nunca haviam tido contato com ela.
O retorno ao Brasil trouxe novos desafios
Depois de preparar as mulas, Pedro iniciou o retorno ao Brasil.
A volta, entretanto, trouxe desafios diferentes daqueles enfrentados na ida. As mulas ainda estavam em processo de adaptação e precisavam aprender a lidar com situações que nunca haviam enfrentado.
Um desses momentos aconteceu quando uma Harley Davidson passou rapidamente perto dos animais. O barulho assustou as mulas, que fugiram. Na confusão, Pedro acabou perdendo Bastião de vista.
A partir daí, o que já era uma viagem cheia de desafios ganhou uma preocupação ainda maior: encontrar o cachorro que o acompanhava desde o início da jornada.
A busca por Bastião e o momento de fé
Pedro procurou pelas proximidades, voltou até a propriedade onde estava hospedado e começou uma verdadeira operação para encontrar o cachorro.
Com a ajuda de Adriano Moraes, gravou um vídeo em inglês pedindo que quem tivesse encontrado Bastião entrasse em contato. Além disso, imprimiu cerca de 500 cartazes de cachorro perdido e os distribuiu pela região. A história também começou a circular nas mídias locais do Texas.
Mesmo assim, as horas passavam e nenhuma notícia aparecia.
Já sem saber mais o que fazer, Pedro decidiu recorrer à fé. Pegou uma Bíblia e abriu em uma página aleatória.
Enquanto tentava ler, recebeu uma ligação de uma mulher de Austin que se ofereceu para ajudar a encontrar Bastião.
Para Pedro, os acontecimentos que vieram depois começaram a ganhar um significado diferente. Ele conseguiu reencontrar o cachorro e, quando Bastião apareceu, a reação dos dois foi de emoção.
Pedro contou que chorou ao encontrar o companheiro, enquanto o cachorro simplesmente pegou um graveto para brincar, como se nada tivesse acontecido.
Depois do reencontro, Pedro se ajoelhou na grama e começou a agradecer a Deus.
Segundo ele, aquele episódio mudou sua maneira de enxergar a própria fé. O momento ficou ainda mais marcante quando, depois de dizer “amém”, uma estrela cadente apareceu no céu.
Para Pedro, aquilo foi uma “Jesusidência”.
A experiência fez com que ele passasse a enxergar a viagem também como uma oportunidade de fortalecer sua relação com Deus.
As pessoas que ajudaram Pedro pelo caminho
Apesar das dificuldades, a travessia também foi marcada por pessoas que apareceram para ajudar.
No Panamá, por exemplo, Pedro contou que recebeu apoio de desconhecidos durante o caminho. Pessoas paravam para tirar fotos, entregavam presentes e contribuíam financeiramente para que ele pudesse continuar.
Em determinado momento, ele relatou ter conseguido US$ 6 mil no país. No entanto, grande parte desse valor foi utilizada para custear a própria logística da viagem, incluindo o transporte da caminhonete e outras despesas.
Segundo Pedro, esses recursos apareciam justamente quando eram necessários para manter o projeto em movimento.
Outros companheiros também passaram a acompanhá-lo em diferentes trechos da jornada. No episódio, Pedro cita nomes como Zé da Bota, Negrão, Jeguim e Branco, além do médico-veterinário Gustavo Palone.
Cada pessoa ajudou em uma parte do caminho. Assim, embora o projeto tenha começado como um sonho individual, a travessia também foi construída pelas pessoas que acreditaram nele.
De volta a Barretos, com uma história para contar
A escolha de Barretos como ponto de partida também tinha outro significado: era ali que Pedro queria encerrar o ciclo.
A cidade fazia parte de sua história antes mesmo da viagem. Foi ali que construiu parte de sua trajetória como berranteiro, conquistou títulos e criou uma relação com o universo do rodeio.

Depois de atravessar países, encontrar as mulas, enfrentar dificuldades e seguir viagem acompanhado por Bastião, o retorno a Barretos representava muito mais do que chegar ao destino.
Era a conclusão de um projeto que havia começado dois anos antes, quando ainda existia apenas no planejamento.
Ao longo da jornada, algumas coisas não saíram como Pedro havia imaginado. Em contrapartida, ele também encontrou pessoas, animais e experiências que não estavam no roteiro original.
É justamente essa combinação entre planejamento e imprevistos que marca a história do Berranteiro das Américas.
Uma viagem que ainda não terminou
Mesmo depois de concluir a travessia, Pedro não trata a experiência como uma história encerrada.
No episódio do MF Cast, ele conta que uma próxima viagem já começa a aparecer nos planos e a China pode ser um dos próximos destinos do Berranteiro das Américas.
A primeira travessia chegou ao fim, mas a estrada continua fazendo parte dos planos de Pedro. Mais do que atravessar países, ele levou consigo o berrante, as mulas, Bastião e elementos da cultura do peão de boiadeiro.
No caminho, encontrou pessoas que acreditaram em seu projeto e viveu situações que transformaram sua própria percepção sobre a viagem. Agora, fica a expectativa sobre qual será o próximo destino dessa história.
Assista ao episódio completo do MF Cast com Pedro Henrique, o Berranteiro das Américas, no canal do MF Rural no YouTube.