Como reduzir as perdas na fruticultura e aumentar a rentabilidade com a industrialização da produção

Como reduzir as perdas na fruticultura e aumentar a rentabilidade com a industrialização da produção

Produzir frutas de qualidade já não é suficiente para garantir rentabilidade. Em diversas regiões do Brasil, o produtor rural enfrenta o mesmo desafio todos os anos: quando chega o período da colheita, a oferta aumenta, os preços caem e boa parte da produção precisa ser vendida rapidamente para evitar perdas.

O resultado é um cenário conhecido por muitos fruticultores: menor margem de lucro, dependência dos compradores e desperdício de uma parcela importante da produção.

Segundo Cleber Bonina, da Despolpadeiras Bonina, esse problema pode representar perdas de até 30% da produção, principalmente porque a fruta é altamente perecível e o produtor tem poucos dias para comercializá-la.

O maior problema não está na produção, mas na comercialização

O produtor domina o plantio, o manejo, a irrigação, a adubação e a colheita. No entanto, quando chega o momento da venda, passa a depender das condições do mercado.

Além disso, quando todos os produtores da região colhem ao mesmo tempo, a oferta aumenta rapidamente e os preços recuam. Como a fruta possui curta vida útil, muitas vezes não há tempo para esperar uma valorização do mercado.

Como se isso não bastasse, parte da produção não atende ao padrão exigido pelo mercado de frutas de mesa, que prioriza aparência, uniformidade, tamanho e ausência de defeitos visuais. Por outro lado, a indústria não exige esse padrão estético. Assim, ela aproveita frutas com pequenas avarias, variação de calibre ou maturação mais avançada para produzir polpas e outros derivados. Dessa forma, os frutos preservam a qualidade nutricional, reduzem o desperdício e ampliam o aproveitamento da colheita.

Industrializar a fruta dentro da propriedade muda o jogo

Uma alternativa que vem crescendo entre os fruticultores é agregar valor antes da venda.

Ao transformar a fruta em polpa congelada, o produtor deixa de depender exclusivamente da comercialização imediata da fruta fresca.

Na prática, isso gera três benefícios importantes:

  • amplia o tempo de armazenamento da produção;
  • reduz perdas provocadas pela perecibilidade;
  • permite escolher o melhor momento para vender.

Em vez de aceitar qualquer preço durante a safra, o produtor passa a comercializar a polpa quando o mercado oferece melhores oportunidades.

Despolpadeira de frutas com capacidade 700kg/hora
Despolpadeira Bonina: onde o desperdício dá lugar à rentabilidade.

Mais valor para a mesma fruta

Outro ponto importante é o melhor aproveitamento da matéria-prima.

O produtor pode direcionar frutas fora do padrão visual exigido pelo mercado para o processamento sem perder a qualidade e o valor nutricional do produto final.

Além da polpa, ele também pode transformar resíduos que antes descartava em uma nova fonte de receita ou utilizá-los para reduzir custos dentro da propriedade.

No caso do maracujá, por exemplo, o produtor pode usar a casca na compostagem ou na alimentação animal, reduzindo o desperdício e aumentando o aproveitamento da produção.

Polpas de frutas congeladas
Mais do que conservar frutas: agregar valor à colheita.

O produtor deixa de ser apenas agricultor e passa a atuar como empresário

A entrevista também destaca uma mudança importante no perfil do produtor rural.

Cada vez mais, o agricultor busca administrar sua propriedade como um negócio, procurando novas formas de agregar valor ao que produz.

Essa visão permite que a agroindústria seja incorporada à fazenda sem abandonar a atividade agrícola.

Além de processar a própria produção, muitos produtores utilizam a estrutura durante outras épocas do ano para atender vizinhos ou processar frutas regionais, aumentando a utilização dos equipamentos e criando novas fontes de faturamento.

Cupuaçu: mais valor, mais receita

Durante a conversa, Cleber apresenta um exemplo prático envolvendo o cupuaçu.

Enquanto a fruta in natura pode ser comercializada por aproximadamente R$ 2,50 a R$ 3,00 por quilo, a polpa congelada alcança valores próximos de R$ 8,00 por quilo.

Além disso, o caroço passou a ter mercado para a indústria de cosméticos, permitindo uma nova fonte de receita para o produtor.

Com isso, o processamento deixa de gerar apenas uma polpa e passa a criar diferentes produtos comercializáveis a partir da mesma fruta.

A própria produção pode pagar o investimento

Um dos pontos mais importantes da industrialização dentro da propriedade é que ela pode ser dimensionada de acordo com a realidade do produtor.

Em muitos casos, a própria produção da fazenda já justifica a implantação de uma pequena estrutura de processamento. Além de agregar valor à fruta, a produção de polpa reduz as perdas na comercialização in natura e aumenta a rentabilidade da safra. Com isso, o produtor pode recuperar o investimento na máquina com mais rapidez.

Planejar a comercialização antes do plantio reduz riscos

Um dos principais aprendizados da entrevista mostra que o produtor deve definir a estratégia de comercialização antes mesmo de implantar o pomar.

Criar alternativas de venda para a fruta in natura e para a polpa congelada reduz a dependência das oscilações do mercado, diminui as perdas pós-colheita e fortalece a segurança financeira da propriedade.

Como destaca Cleber Bonina, preparar a estrutura de processamento antes do início da produção permite que o fruticultor tenha mais autonomia para decidir quando e como comercializar sua safra.

Mais do que evitar desperdícios, a industrialização dentro da propriedade pode aumentar a rentabilidade, diversificar as fontes de receita e transformar o produtor em um agente mais competitivo no mercado.

Quer entender como esse modelo funciona na prática? Assista à entrevista completa do MF Rural Talk com Cleber Bonina e confira exemplos reais, estratégias de agregação de valor e oportunidades para reduzir perdas e aumentar a lucratividade da produção de frutas.

Autor

  • Ana Carolina Verri

    Médica Veterinária,
    Especialista em Qualidade do Alimento de Origem Animal.