Bem-estar e a economia na criação de cavalos

Bem-estar e a economia na criação de cavalos

Muitas pessoas pensam que interesses econômicos e bem-estar animal caminham em direções opostas, que são conflitantes.

Neste artigo, busca-se mostrar que não só podem ser alinhados, mas que sem bem-estar não haverá economia, em se tratando do nosso tema: criação de cavalos (Equideocultura).

Qual bem-estar buscamos?

Antes de discutir a relação com a economia, é importante definir o que se entende e deseja de bem-estar, algo que não é tão simples quanto parece. Tomando um exemplo mais em tom provocativo, o senso comum pode dizer que tirar sangue de um cavalo é contrário ao bem-estar.

De fato, em competições equestres, inclusive, qualquer sangramento é considerado grave e há punições severas em diversas modalidades. Entretanto, para produção de soro anticovid pode ser retirado 12 litros de plasma por sessão, de um único animal. E, felizmente, isso é bem aceito.

Poderia parecer paradoxal não permitir uma pequena gota em competições a aceitar grande volume na produção de soro. Mas, não é. Isso porque não olhamos apenas o bem-estar animal, que é muito importante, mas não exclusivo. Ponderamos com o bem-estar humano.

Competição envolvendo cavalos e o bem-estar dos animais
Mesmo em competições envolvendo cavalos, o bem-estar dos animais é uma das prioridades.

Esse exemplo, quase caricato, foi dado para ilustrar a resposta a questão: qual bem-estar buscamos? Buscamos o bem-estar único, que é atingido considerando simultaneamente bem-estar animal, bem-estar humano e equilíbrio ambiental.

Bem-estar dos cavalos a favor da economia

Há vários exemplos empíricos mostrando que investir em bem-estar animal pode resultar também em benefícios econômicos. Note que foi utilizado a palavra “pode” e não “implica obrigatoriamente”.

Estudo conduzido por Duarte e Lima (2017) mostraram resultados obtidos com animais manejados em três diferentes sistemas: estabulados, semi-estabulados e a pasto.

Ficou evidenciado, conforme mostrado na Tabela 1, que o maior bem-estar (menor presença de vícios e de casos clínicos) está associado ao menor custo (benefício econômico).

Tabela 1. Resultados considerados três diferentes sistemas de manejo:

 EstabuladosSemi-EstabuladosPasto
Presença de vícios14,9%10,0%3,8%
Casos Clínicos36,0%24,0%7,7%
Custo mensalR$ 1.025,96R$ 715,35R$ 385,77
Fonte: Duarte e Lima (2017).

Esse é um exemplo, mas há diversos outros, principalmente quando consideramos os animais de lida, de trabalho, que estão, em geral, em baixo nível de bem-estar.

Cuidados simples, como aplicação adicional de vermífugo ou vacinação transformam-se em benefícios econômicos rapidamente.

Onde o bem-estar pode ajudar muito a economia

Estamos acostumados a tratar do valor de uso dos bens e serviços. A partir do benefício (utilidade) que proporcionam defimos o preço que estamos dispostos a pagar.

Cavalos criados no pasto
Pesquisa mostra que os cavalos criados a pasto têm um custo menor e são mais saudáveis.

Entretanto, essa atribuição de valor nem sempre ocorre. Em situações a não exclusividade (impossibilidade de restringir o uso do bem ou serviço aos que não pagam por ele) e de não rivalidade (o consumo de um bem ou serviço por uma pessoa não reduz o benefício para outra), o mercado por si só (oferta e demanda) não consegue atribuir um preço, um valor.

Por exemplo, não existe um valor de mercado para o por do Sol, um típico bem não rival.

Bem-estar dos cavalos tem valor

Retornando ao tema deste artigo, o bem-estar de um equídeo não tem preço de mercado, mas possui valor. Pessoas, mesmo que não utilizem um cavalo para cavalgada ou outra atividade, em geral, consideram importante, de valor, a existência de um cavalo com bem-estar.

E como a economia trata casos como esses? Uma maneira é penalizando quem proporciona perdas a terceiros (a tributação de cigarros pode ser um exemplo dessa situação) ou premiando quem gera benefícios a terceiros, as chamadas externalidades positivas.

Começando a reunir os diversos tópicos discutidos, observamos que o equídeo tem uma relação forte com o bem-estar único. O bem-estar animal é a parte mais evidente, mas a contribuição para o bem-estar humano é enorme.

Os benefícios para saúde humana, evidenciado nos praticantes de equoterapia mas que esse estende a todos que o utilizam, a beleza admirada mesmo que a distância, o simples fato de saber que existem, são fontes de bem-estar humano. Isso tem valor, inclusive econômico.

E pode ser premiado com benefícios fiscais, incentivos creditícios e outras formas, é o bem-estar contribuindo para a economia.

E a ausência de bem-estar?

Se o bem-estar ajuda a economia da equideocultura, sua ausência não apenas prejudica: é fatal.

Sem bem-estar, não se justificam provas equestres, sem bem-estar o uso do animal para trabalho não pode ocorrer. Em outras palavras, a ausência de bem-estar implica no fim de atividades equestres, portanto, da equideocultura.

É fundamental que o bem-estar animal seja visto como um aliado da economia, não como concorrente. Investir em bem-estar gera satisfação, utilidade, para sociedade. E esta retribui fortalecendo a economia.

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